sábado, 11 de agosto de 2012

A privatização da cidadania parte III


Conclusão

Percebe-se que as desigualdades no país não estão relacionadas apenas a má distribuição de renda, mas também as dificuldades de acesso da população aos bens e serviços que deveriam ser disponibilizados aos cidadãos.


É claro que se uma pessoa não tiver acesso a uma educação de qualidade na sua base de formação e nos anos posteriores, isso se refletirá na sua vida adulta quando for em busca de um emprego. Sem uma boa formação, o máximo que conseguirá será um subemprego.
 Logo seu salário será baixo e sua qualidade de vida será muito aquém do desejável. Esta situação se prolongará pelas gerações futuras. Da mesma forma acontece com a questão da segurança pública no nosso país.

Sem a atuação ou atuação mínima do Estado, outros agentes assumem o comando e começam a surgir os poderes paralelos, que funcionam como uma empresa privada como, por exemplo, as milícias entre outros, que cobram para garantir a segurança e outros serviços que os moradores de determinadas regiões quiserem contratar. Surgem principalmente nos locais onde está concentrada a maior parte da população, nas periferias.

Nestes locais a omissão do Estado acentua cada vez mais a distância dos cidadãos residentes nestes locais. Isso leva insegurança, descrédito com os poderes constituídos e não colabora, em nada, com o desenvolvimento das pessoas. Por causa desta situação, as pessoas acabam deixando de fazer as suas atividades, sua vida social fica limitada ao que determina estes poderes paralelos que mandam e desmandam, definem as regras de convivência do local além de expor as pessoas a situações de perigo e constrangimento.

É preciso maiores investimentos na escola e na segurança públicas e em todos os serviços que devem ser disponibilizados pelo Estado, para que a população não precise recorrer aos serviços privados, ou o que é pior, serem vítimas de pessoas desonestas e criminosas, que se utilizam da situação de fragilidade, descaso e ausência de proteção em que se encontram estas pessoas para extorquir e explorar esses cidadãos, que já são tão prejudicados por uma linha político-ideológica que acentua, cada vez mais, as desigualdades entre os povos e que transformam, de maneira cruel, as relações sociais estabelecidas na sociedade, fazendo com que as pessoas, cada vez mais, valorizem o individualismo em detrimento dos valores coletivos.

 Valores estes tão importantes para a conquista de direitos e de representatividade política e social. Este é um desafio do Estado, mas que deve ter o comprometimento de toda sociedade. É claro que isto não é fácil conseguir realizar esta mudança, não acontece da noite para o dia, mas é preciso ter isto como meta principal, não abandonar jamais esta idéia, este objetivo. Tem que ser uma via de mão dupla. Onde cada um seja responsável por uma parte.

 O Estado disponibiliza os serviços e cria mecanismos e regras para que o acesso seja irrestrito e universal ao mesmo tempo em que a sociedade se compromete a zelar pelos serviços e equipamentos, fazer o seu controle e definir as prioridades, com a consciência de que o serviço é público, ou seja, do povo, e que por isso deve ser preservado, e não privado, com um proprietário que diz quais as regras que serão definidas para garantia do acesso aos serviços.
 Desta forma, a sociedade em conjunto, em comunidade, criará meios e mecanismos de garantir que seus direitos sejam respeitados. Assim, a cidadania plena tão sonhada não será apenas uma quimera, um sonho, muito menos um produto de mercado, mas fará parte da sua vida, da sua realidade. O público será de fato do e para o povo. E a sociedade será a primeira a beneficiar-se destas ações que ela mesma definiu como as suas prioridades de atendimento.


Referências bibliográficas

O fenômeno urbano. VELHO, Olávio Guilherme (organizador). 3ª. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976, 133.
SENNETT, Richard. O declínio do homem público. : as tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 15-45, p. 381-415.

Posted 27th August 2008 by Adeildo Vila Nova


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