sábado, 1 de dezembro de 2012

O Serviço Social e a Questão Racial

Roda de Conversa organizada pelo Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS-SP) debate o Serviço Social e a sua relação com a Questão Racial.

Para comemorar o Dia Nacional da Consciência Negra, o CRESS-SP realizou no último dia 29 uma mesa redonda para discutir o Serviço Social e sua relação com a Questão Racial. O evento foi realizado pela Comissão Ampliada de Ética e Direitos Humanos (CAEDH) do CRESS-SP, às 19h30, na sede do CRESS-SP, sito à rua Conselheiro Nébias, 1022, Campos Elíseos, em São Paulo/SP. 

Greice de Oliveira (Assistente Social da
Coordenadoria de Igualdade Racial de Guarulhos
A assistente social Greice de Oliveira, da Coordenadoria de Igualdade Racial da cidade de Guarulhos/SP foi convidada para debater essa questão com os presentes e iniciou os trabalhos com a seguinte provocação: a questão racial é uma questão só dos negros? Essa foi a tônica do encontro. Com um público majoritariamente composto por mulheres e negras, o questionamento maior foi de como uma profissão com este perfil, que atende uma população na sua maioria negra, discute tão pouco essa questão e por que os grandes nomes da literatura do Serviço Social não abordam essa temática em seus trabalhos. Além de assistentes sociais, também estiveram presentes profissionais de outras áreas como a psicologia, além de estudantes de Serviço Social, o que enriqueceu ainda mais os debates e as reflexões. Entidades como o  Grupo de Estudos das Relações Etnicorraciais e o Serviço Social (GERESS) e o Centro de Combate ao Racismo da prefeitura de São Paulo, representado pela assistente social Naiza Santos, também estiveram presentes. 

Depois da Nigéria, o Brasil é o país que apresenta o maior número de negros na sua população. O resultado do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, no Brasil a maioria da população é negra (soma dos que se declararam pretos ou pardos), o que revela uma maior consciência sobre a identidade racial dos brasileiros, marcada por uma postura politica, ideológica e cultural que resgata a origem africana do nosso povo. Mas infelizmente essa maioria não está representada proporcionalmente nas mais diversas esferas da sociedade, seja na área acadêmica ou profissional. Os negros estão sub-representados nas camadas ditas "mais favorecidas" e sobre-representados nas áreas ditas "menos favorecidas". O que torna o trabalho do assistente social ainda mais importante no atendimento e atenção a estas questões. Mostra a importância de considerar o quesito raça/cor nas suas abordagens e encaminhamentos para benefícios e inclusão dessa população nas políticas públicas nas mais diversas áreas. 

Assistentes Sociais Cida e Maria de Jesus
(representantes do CRESS-SP e da CAEDH)
Foi um momento muito rico para a discussão sobre o olhar atento que o assistente social deve ter para estas questões. A assistente social Greice iniciou os trabalhos apresentando alguns conceitos sobre raça, racismo, eugenia, mito da democracia racial. Apresentou o racismo como uma das expressões da questão social e fez um alerta sobre a confusão que existe entre desigualdade social e desigualdade racial, pois o discurso da maioria da população é de que não existe uma questão racial e sim social. Como diz o rapper Genival Oliveira Gonçalves, o GOG, em uma das suas belas músicas, Carta à Mãe África, "nos mergulharam numa grande confusão, racismo não existe e sim uma social exclusão". Querem nos convencer que o racismo acabou. Para a assistente social o que existe no Brasil é uma má distribuição e não escassez de recursos e ainda cita uma pesquisa de Ana Volosko, médica sanitarista que, em uma de suas pesquisas, identificou que as mulheres negras são vítimas do sistema, onde, sob a alegação de que a mulher negra é mais forte, acabam recebendo menos anestesia que as não negras, na hora do parto. Uma das presentes diz que o preconceito e a discriminação "cria um calo na alma". 

Mas o que o Serviço Social tem a ver com isso? A legislação que regulamenta a profissão nos responde claramente. No Código de Ética do Assistente Social, nos princípios fundamentais VI e XI nos coloca a responsabilidade de ficarmos atentos às diversas formas de atuação sem preconceito e discriminação de qualquer tipo. De acordo com o princípio fundamental VI, devemos ter "empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças" e ainda de acordo com o princípio fundamental XI, devemos realizar o "exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física". Ou seja, a regulamentação da nossa profissão contém mecanismos que nos orientam para a prestação de serviço sem discriminação e sem preconceito. 

Participantes da Mesa Redonda
Na ocasião, foi apresentado o livro Mulheres Negras: histórias de resistência, de coragem, de superação e sua difícil trajetória de vida na sociedade brasileira, de minha autoria, Adeildo Vila Nova e da Edjan Alves dos Santos, Jane Alves. O livro foi lançado recentemente em Santos/SP, com uma grande repercussão de mídia impressa e televisiva, realizado pela Associação Cultural dos Afro-descendentes da Baixada Santista (AFROSAN) e na cidade de São Paulo, com um público expressivo que compareceu à Casa das Rosas, na av. Paulista, para receber o seu exemplar autografado. A primeira deputada federal do Brasil, a Sra. Theodosina Rosário Ribeiro, também esteve presente no lançamento, além de diversas outras autoridades como a Professora Elisa Lucas Rodrigues, assessora para assuntos parlamentares da Casa Civil, realizado em parceria com o Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra de São Paulo e a Assessoria de Cultura para Gêneros e Etnias (ACGE), órgão da Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Estado de São Paulo. Um dos exemplares foi disponibilizado para o CRESS-SP e outro foi entregue à assistente social Greice, representante da Coordenadoria de Igualdade Racial de Guarulhos/SP. 

Como mensagem final ficou a esperança de que o CRESS-SP possa retomar as discussões e reflexões sobre o Serviço Social e suas relações com a Questão Racial na sociedade brasileira realizadas em anos anteriores por grupos formados por assistentes sociais e como os profissionais do Serviço Social, no seu fazer laboral, no cotidiano das pessoas, possam atentar para esta questão e contribuir para a diminuição das iniquidades existentes entre negros e não negros. 

Um comentário:

  1. Muito temos que aprender ainda com o respeito ao próximo e o fim do preconceito racial.

    Belo post, parabéns e sucesso!

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