Apresentação


Uma infância difícil

Nasci em 1975, no agreste pernambucano, mais precisamente na cidade de Caruaru. Sou o 11º de uma família de agricultores com 13 filhos. Vivíamos basicamente da colheita de feijão e a feitura de farinha de mandioca que era vendida  e dos serviços nas olarias (fábricas de fazer tijolos). Sempre gostei muito de estudar e de ensinar. Aos 10 anos, aproximadamente, juntei algumas pessoas do sitio onde vivíamos para ensinar a ler e escrever. Aprenderam, ao menos, a escrever os seus nomes. No sítio onde morava a escola só ensinava até a 4ª série (atual Ensino Fundamental 1). Em 1987, já concluído o Ensino Fundamental 1 e como não queria parar de estudar, aproveitando a ocasião de ter um irmão que morava aqui em Santos, litoral sul do Estado de São Paulo, escrevi para ele e pedi que me ajudasse financeiramente para que eu pudesse arcar com as despesas com o transporte do sítio até a cidade, onde poderia continuar os meus estudos, já que meus pais não tinham como custear estas despesas. Nesse ínterim, a professora que vinha da cidade para dar aula na escola do sítio, percebendo todas estas dificuldades, ofereceu a sua casa para que eu ficasse lá enquanto estudava, o que minha mãe aceitou de pronto, já que o meu irmão, daqui de Santos, já não podia mais custear as despesas. Enquanto ficava hospedado na casa dessa professora, ajudaria nas atividades domésticas.
Consegui concluir o Ensino Fundamental 2 (da 5ª a 8ª série), mas tinha que deixar a casa da professora na cidade e parar de estudar. Foi ai que, seguindo sempre essa minha vontade de estudar que, mais uma vez, pedi ajuda ao meu irmão. Agora para que ele me trouxesse para Santos e assim eu poder dar continuidade aos meus estudos e concluir, pelo menos, o Ensino Médio.

Algumas possibilidades

Cheguei na cidade de Santos no mês de fevereiro de 1991 e consegui uma vaga em uma escola técnica. No ano de 1993 me formei em Técnico de Contabilidade. Mas eu ainda queria mais. Fazer faculdade era meu próximo objetivo. Como fazer faculdade se não tinha condições de pagar as mensalidades. Continuei estudando em casa, fazendo outros cursos de curta duração, me capacitando para o mercado de trabalho. Mas o que eu queria mesmo era entra numa universidade. Busquei algumas formas de conseguir esse objetivo sem ter que pagar, já que o dinheiro que ganhava com o meu emprego não era suficiente para arcar com as despesas de alimentação e aluguel de moradia. Uma das alternativas era conseguir bolsa de estudos. Depois de 7 anos, em 2001, entrei em um cursinho pré-vestibular comunitário para negros e carentes que dava a possibilidade de conseguir bolsas de estudos para a universidade. Foi nesse momento que entrei em contato com a área dos movimentos sociais onde milito até hoje, que foi o Movimento Negro. Fiz um ano de cursinho, mas infelizmente, por questões ideológicas e políticas, não consegui a bolsa de estudos tão esperada. Mesmo assim, me aventurei e em 2002 ingressei no curso de Jornalismo, da faculdade de Comunicação da Universidade católica de Santos (UNISANTOS).

Uma contribuição para a sociedade brasileira

Neste mesmo ano, em parceria com algumas lideranças do Movimento Negro da Região Metropolitana da Baixada Santista fundamos a Associação Cultural dos Afro-Descendentes da Baixada Santista (AFROSAN), que desenvolve um projeto semelhante ao que participei, mas agora com um olhar mais independente, sem conotações ideológicas ou políticas e muito menos religiosa. A fundação desta entidade me colocou em contato mais próximo com a questão racial no nosso país e fez com que eu me aprofundasse cada vez mais nos estudos sobre essa temática. Infelizmente, por questões financeiras, não pude dar continuidade ao curso de jornalismo, já que não consegui nenhuma bolsa de estudos e o pagamento das mensalidades ficou inviável. Mas mesmo assim não desisti. Busquei outras alternativas. Foi quando surgiu a possibilidade de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Na primeira tentativa só consegui nota para uma bolsa de 50%, o que era inviável pra mim. Já na segunda tentativa, obtive uma nota muito boa e consegui uma bolsa de 100% para um curso de graduação em uma universidade particular. Isso já foi no segundo semestre do ano de 2006. Paralelamente, nestes anos todos, continuamos com os trabalhos na AFROSAN.

A realização de um sonho

Em 2007 ingressei no curso de bacharelado em Serviço Social do UNIMONTE. Esse curso fez com que eu pudesse me capacitar para poder cooperar com a busca por uma melhoria de vida das pessoas mais necessitadas. Agora de uma forma técnica, profissional e não apenas com um olhar assistencialista, de ajudar por ajudar, mas que essa ajuda tem um propósito, um objetivo claro, que é a emancipação e a autonomia dos sujeitos. Como sempre me interessei nas atividades acadêmicas e de pesquisa, no ano de 2008, enquanto cursava o curso de graduação, ingressei no projeto de iniciação científica trabalhando na elaboração de um “Retrato dos Conselhos Municipais de Saúde, Assistência Social e dos Direitos da Criança e do Adolescente da Região Metropolitana da Baixada Santista” que tinha como principal objetivo Analisar, a partir das legislações específicas dos nove municípios que formam a Região Metropolitana da Baixada Santista, a composição e regularidade dos respectivos Conselhos Municipais de Assistência Social, Conselhos Municipais Direitos da Criança e do Adolescente e Conselhos Municipais de Saúde e sua conformidade com a legislação federal e diretrizes nacionais, bem como a realização das respectivas Conferências Municipais. Este projeto foi aprovado para apresentação de banner no Congresso Nacional de Iniciação Científica (CONIC-SEMESP), realizado em novembro de 2010, fazendo parte dos anais do referido congresso.

A superação de um sonho

Com o término da graduação e com a situação financeira mais estabilizada, ingressei em um curso de especialização/MBA em gestão de Pessoas, também no UNIMONTE. O que representou muito mais do que havia sonhado para mim. Neste MBA tive contato com o Programa de Estágio Docente (PED), o que veio ao encontro ao sonho de criança, que era o de ensinar, de ser professor. Fiz a disciplina do PED e durante seis meses acompanhei a professora do curso de Pedagogia, auxiliando-a e ministrando aulas nas disciplinas de Avaliação e Planejamento Educacional e Didática e Prática de Ensino do Curso de Pedagogia, no segundo semestre de 2011. O contato com essa disciplina fez com que eu me interessasse cada vez mais pela prática docente. Além disso, me colocou em contato com as diversas formas e estratégias de compartilhar os nossos conhecimentos. A vontade de ensinar da minha infância ficou muito mais clara a partir do momento que comecei a participar desse programa de estágio da universidade. Essa minha experiência fez com que assumisse as aulas de Educação para a Cidadania, disciplina que é ministrada no Curso Pré-Vestibular Comunitário da AFROSAN, associação que sou diretor-fundador e voluntário.

Uma contribuição para a Comunidade Negra

Todo esse envolvimento com as questões raciais serviu de inspiração para a elaboração do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em Serviço Social e do MBA em Gestão de Pessoas, que já está em fase de conclusão para apresentação. Atualmente, trabalho como assistente social na Secretaria de Saúde da cidade de Santos. Atuo diretamente com pessoas que fazem uso abusivo de álcool e outras drogas. No meu trabalho profissional percebo, constantemente, os impactos da violência na saúde dos meus pacientes. Uma violência que não é apenas física, mas estrutural. Uma violência contra os direitos fundamentais de qualquer cidadão brasileiro. Lidamos com violações de direitos diariamente. Com meu trabalho de assistente social procuro minimizar os efeitos dessa violência social na saúde dos pacientes que atendo. É importante notar que, durante esse período que estou nessa área, dados preliminares nos aponta a prevalência desse quadro de vulnerabilidade social entre os pretos e pardos, ou seja, entre os negros. Nesse sentido, é preciso que olhemos os impactos da violência na saúde para além da questão social. Que a questão racial deve ser considerada, especialmente quando falamos em homicídios, onde os negros, especialmente os mais jovens, são as principais vítimas.
  
Uma nova forma de ensinar e aprender

A possibilidade de educação à distância, por meio das diversas ferramentas tecnológicas da internet fez com que eu me interessasse ainda mais, pois é a possibilidade de aliar duas coisas que gosto muito e que sou um curioso e incansável na busca de novos conhecimentos que são a tecnologia/informática e a educação. A combinação entre essas duas áreas trazem possibilidades impensáveis há alguns anos. Como pode perceber, a educação foi e é a mola propulsora da minha vida. A educação me mobilizou para o que sou hoje e me mobiliza para o que serei amanhã. É com essa educação que espero, com o meu trabalho, mobilizar as pessoas a buscar sua melhoria de vida, sua autonomia, sua emancipação para que tenhamos uma sociedade menos injusta e mais igualitária, onde a cor da pela, a condição social, a orientação sexual, a religião ou a sua raça/etnia não sejam obstáculos para sua ascensão social, política e econômica. 

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